O cantar do galo insone

Durmo menos a cada dia.

Menos sono em mais vezes.

Às vezes, é como se dormisse o dia todo.

Às vezes, é como se não dormisse dia algum.

Acho que ando a esperar os galos, os outros galos, os de João.

Difícil é dormir assim, com eles a cantar na minha cabeça, até amanhecer…

Amanhã é terça-feira e segunda-feira, ao mesmo tempo, para nós, nós que não dormimos aos domingos…

Tecendo a Manhã

Um galo sozinho não tece uma manhã:

ele precisa  sempre de outros galos.

De um que apanhe esse grito que ele

e o lance a outro; de um outro galo

que apanhe o grito que um galo antes

e o lance a outro; e de outros galos

que com muitos outros galos se cruzem

os fios de sol de seus gritos de galo,

para que a manhã, desde uma teia tênue,

se vá tecendo, entre todos os galos.

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E se encorpando em tela, entre todos,

se erguendo tenda, onde entrem todos,

se entretendendo para todos, no toldo

(a manhã) que plana livre de armação.

A manhã, toldo de um tecido tão aéreo

que, tecido, se eleva por si: luz balão.

João Cabral de Melo Neto in A Educação pela Pedra (1962-1965).

~ por C. Guilherme A. Salla em 06/10/2008.

Uma resposta to “O cantar do galo insone”

  1. Eu gosto da poesia escrita com o português de Portugal,sou brasileira e o português que se escreve e se fala aqui na minha opinião, é bem diferente. Eu também durmo muito pouco, pra mim dormir é perda de tempo…eu poderia fazer milhões de coisas enquanto não durmo. Só descanso quand já não aguento mais.

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