O cantar do galo insone
Durmo menos a cada dia.
Menos sono em mais vezes.
Às vezes, é como se dormisse o dia todo.
Às vezes, é como se não dormisse dia algum.
Acho que ando a esperar os galos, os outros galos, os de João.
Difícil é dormir assim, com eles a cantar na minha cabeça, até amanhecer…
Amanhã é terça-feira e segunda-feira, ao mesmo tempo, para nós, nós que não dormimos aos domingos…
Tecendo a Manhã
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisa sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
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E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.
João Cabral de Melo Neto in A Educação pela Pedra (1962-1965).

















Eu gosto da poesia escrita com o português de Portugal,sou brasileira e o português que se escreve e se fala aqui na minha opinião, é bem diferente. Eu também durmo muito pouco, pra mim dormir é perda de tempo…eu poderia fazer milhões de coisas enquanto não durmo. Só descanso quand já não aguento mais.