Eu tirei uma foto do caixão. Não, não o da Eloá…

Um entregador de pizzas, com uma daquelas mochilas de caixa de isopor, deixou (provavelmente) sua moto estacionada, rente a guia, na calçada, em frente ao necrotério. Ele também estava em busca de uma foto de caixão…

Mas, confesso, não sei a quem pertence o caixão que fotografei (ou se agora é este alguém que pertence ao caixão)… só sei que agora me sinto um pouco como ele, o motoboy entregador, que engarrafou a fila ao parar, celular nas mãos, sua caixa de isopor nas costas, diante do caixão aberto da menina morta, sequestrada.

Ele em Santo André, eu na Recoleta, uma só perversão…

A diferença que existe entre nós está apenas no motivo da fotografia. O entregador, com sua foto, registra uma invasão, como a do GATE, como a da imprensa, ao caixão da mocinha. Eu registro aquele outro gate, o gate onde Cérbero nos aguarda, junto ao rio Estige, na ante-sala de Hades.

Contudo, no meu caixão não tem mocinha, nem há pizzas na mochila em minhas costas…

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~ por C. Guilherme A. Salla em 22/10/2008.

2 Respostas to “Eu tirei uma foto do caixão. Não, não o da Eloá…”

  1. Xooô Urubus!!!!

  2. Você me supreende…
    Como é que as pessoas diante da dor
    de outrar arrumam tempo para fotografar…
    Para lucrar, “a morte é um espetaculo da vida” (Leão Tostoi)

    parabens pelo blog

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