Sobre a natureza dos prêmios literários, Moacires, pais, filhos e o mercado editorial.

491026494_12858ca537

Conversávamos, tempos atrás, eu e Moacir Rocha,  sobre a natureza e índole de comissões julgadoras de concursos e prêmios literários.

Algumas conclusões advindas:

  • São imparciais por princípios, mas não aos cânones;
  • Tendem ao jugo favorável do texto sentimentalóide, emotivo, otimista-positivo, saudosista, narrativo e personalista;
  • São facilmente suscetíveis e reagem negativamente ao realismo cru, ao concreto, ao racional, ao experimental, à crítica social e cultural, à violência e ao pessimismo;
  • Deixam se seduzir facilmente pelo texto palavroso, prolixo e erudito, assim como pela correção gramatical estreita e normativa.

Pergunta:

Por que então insistir em participar destes certames, eles têm alguma utilidade para o autor?

Resposta:

Sim, eles são úteis na medida que testam os limites da moral literária vigente; são úteis enquanto teste que identificam os delimitadores da zona mediana de um virtual público leitor.

O leitor medíocre é o alvo do mercado editorial. É ele que transforma livros ruins em bestsellers. Ao mercado não interessa o que seja o leitor ou a literatura, ao mercado interessa o consumidor.

Problema:

Prêmios e concursos literários buscam, atualmente, “produtores” de literatura e não escritores. Escritores criam “arte”, produtores fabricam “produtos”.

Prêmios e concursos literários prestigiam o mercado e os produtos.

Quem zelará pela Literatura e pelo escritor?

Como já lhes havia adiantado aqui, posts abaixo, os Moac(i/y)res cumpriram suas promessas. O Moacir Rocha (que em breve reforçará o time com um blog próprio) me enviou a foto em que posamos ao lado do imortal. O outro Moacyr, o Scliar, atenciosamente, enviou-me um e-mail agradecendo o livro que lhe dei e elogiando meu poema perdedor.

Eu seguido de Moac(y/i)res, Scliar e Rocha.

Eu seguido de Moac(y/i)res, Scliar e Rocha.

Fico lisonjeado, são estes os leitores que procuro e para quem escrevo…

O Rocha, recebendo prêmio do Scliar.

O Rocha, recebendo prêmio do Scliar.

Segue agora, e me orgulha de ser o MIOPIA o escolhido para publicação, a crônica agraciada com Menção Honrosa no 4° Prêmio Literário Acrísio de Camargo, de autoria do cronista e poeta indaiatubano Moacir Rocha (esse, cabe aqui destacar, realmente um escritor, na acepção acima discutida):

O dia em que o Filho se torna Pai.

No meu ponto de vista ser Pai é compadecer com estigma de antiquado. Pois bem, até você ser um!

No ano passado Deus pregou uma pecinha em minha vida, uma peçinha chamada Arthur. Até então ser pai pra mim era apenas a função de fecundador que depois do serviço feito ficava com a parte fácil do negócio, ser chamado de herói pelo filho bajulador. De aí em diante este espírito de jovem dá lugar a rebeldia contraposta à idealização do vulgo senhor da casa, o bom e velho Pai, que o diga Seo Toninho, tamanhas travessuras que o já “aborrescente” filho lhe causara. Andar de moto?! Nem pensar! Não pode beber, não pode fumar quanto mais passar as férias na casa daquele amigo da cidade grande que nunca agrada nenhum Pai.

Veja bem, nem to me referindo as discordâncias quanto a gosto musical, time de futebol, opção política… Essas coisas menos importantes que afligem o relacionamento. Afinal porque que eu tenho que ouvir Roberto Carlos? Poxa vida eu gosto é de Rock And’ Roll, dá-lhe Led Zeppelin. Mais ele insisti em dizer que isso é coisa do demônio, às vezes dá até medo. Não sei por quê?

Agora você quer o ver ficar fera? É só colocar aquela calça caindo que o bicho pega. – Coloca a cinta rapaz! Colocar a cinta pra que?! A intenção é que ela caia mesmo.

Bom, fugi um pouco do foco. Eu dizia da pecinha que Deus me pregou. Este tal de Deus é tão sensacional! Quanto mais você pensa que ele está te castigando, mais motivos pra agradecer aparecem. Este tal de Arthur que ele me mandou, é o carinha mais espetacular que eu já vi. E pior que ele me fez ficar andando o hospital a noite inteira. Enquanto os médicos não vieram me dar a noticia de seu nascimento…

Eu não sabia como reagir, parece que chorar não resolve por totalmente a aflição de esperar e a felicidade ao saber das boas vindas.

Enfim, os planos para a vida deste menino já estavam traçados na minha mente. Demorei nove meses pra confeccionar tudo na minha cabeça, detalhe por detalhe, eu já sei inclusive o curso que ele vai fazer na faculdade, o time que ele vai torcer a música que ele vai ouvir e etc. Opa!!! Esta história toda não me é estranha.

É que naquele momento em meio a prantos vendo um ser inofensivo chorando naquele carrinho de recém-nascido que me veio um alento dizendo

– “é meu amigo… agora você é pai”.

Se existe realmente este negócio de “remorso”…

Bom, meu coração que já estava cheio de emoção com nascimento de meu herdeiro me remetia ao bom e velho “Seo Toninho”, seus ensinamentos e todas as coisas importantes que ele me ensinou. E uma entre tantas outras coisas estava à palavra gratidão.

Montei na minha motoca e em disparada fui ao encontro daquele que ainda é meu herói e sempre será.

Encontrei-o nos afazeres, no sitio onde dignamente faz o seu ganha pão. As mãos calejadas, maltratadas pelo sol de outrora davam as minhas toda segurança naquele momento; igual quando atravessávamos a rua quando ainda eu era seu pequenino. Na verdade acho que ainda sou!

Um abraço. Aquele foi o momento em que percebi o quanto aquele homem é importante na minha vida, até hoje meus olhos se enchem de lágrimas ao relembrar.

Disse ao meu pai que mais um de inúmeros netos que ele já tinha havia nascido, e como se ainda fosse o primeiro, dividimos as lágrimas.

Éh, não é fácil, mais é extraordinário.

O dia em que o Filho se torna Pai.

O mais interessante de tudo, na hora em que fui embora meu Pai me disse:

– Vai devagar com essa moto rapaz, pense no seu filho.

E eu então gastei dez minutos a mais por meu Filho, e os mesmos dez minutos a mais por meu querido Pai.

Por Moacir Rocha, poeta e cronista indaiatubano.

Anúncios

~ por C. Guilherme A. Salla em 13/12/2008.

5 Respostas to “Sobre a natureza dos prêmios literários, Moacires, pais, filhos e o mercado editorial.”

  1. Infelizmente, a literatura no Brasil ainda é vista como se estivéssemos no século XIX. Muita coisa ainda no Brasil parece estar no século XIX.

    Participar de concursos literários nunca deixará de ser uma boa experiência. Especialmente para conhecermos o que pensam e escrevem os leitores, professores e poetas.

    Geralmente, esses vencedores correm para o lado dos tradicionais, das rimas, dos sonetos, da poesia narrativa etc.

    Mas se procurar bem encontrarás concursos com propostas mais interessantes.

    Sobre esse momento, aliás excelentes conclusões sobre os concursos, cabe uma reflexão importante: quanto mais dominar o tipo de texto que escreve e conhecer o seu estilo, mais chances de respeito e admiração terá. O estilo é algo que deve ser inconfundível. Tarefa árdua e difícil.

    Um abraço respeitoso.

    Emerson Sitta

  2. O mesmo raciocínio serve para concursos musicais. Semana passada participei de um aqui no Rio, e a banda ganhadora trazia uma música de “autoria própria” que era um plágio descarado de Paint It Black, Dos Rolling Stones. CHeguei a comentar o fato durante a execução da música, e para minha surpresa, no final, ainda se tornaram campeões (claramente não sendo a melhor banda). O nobre juri era composto por mais de 15 especialistas em música, e o que me deixa indgnado é que todos estes especialistas não conheçam uma tal bandinha chamada Rolling Stones e nem tenham identificado o plágio, mas enfim…

  3. FICO LISONGEADO EM PARTICIPAR DE SEU POST…
    ESTA CRÔNICA É SENTIMENTALISTA…POR MÉRITO DE UMA GRANDE REALIZAÇÃO DE MINHA VIDA.O PRÍNCIPE ARTHUR!!! “DEVERAS”.

    QUANTO AO “AFANADO” ACRISIO DE CAMARGO, JÁS O TEMPO EM QUE ME PREOCUPAVA…PEÇO O MESMO A TI MEU GRANDE AMIGO…

    SEUS TRABALHOS ESTÃO AQUEM DESTAS AVALIAÇÕES..REMETE-SE AO MAPA CULTURAL EM QUE FOI PREMIADO..SERÁ QUE SEUS TRABALHOS NÃO ESTÃO À ALTURA DO ACRISIO???

    PERGUNTO EU, ESTUPEFATO DAS IRONIAS MELANCÓLICAS QUE VOU FAZER O FAVOR DE NÃO LER EM PUBLICAÇÕES DO JORNAL TRIBUNA…

    MEU DESAFIO…

    VAMOS ECREVER UM LIVRO JUNTOS…E DEIXAR PARA OS LEITORES PROVIDOS DE JUSTIÇA JULGÁ-LOS…

    MAIS UMA VEZ MUITO OBRIGADO PELA LEMBRANÇA…

    VOU DISPONIBILIZAR OUTROS ARTIGOS, PARA PUBLICAR AQUI…

  4. Que interessantíssimos textos li pelo blog. Adorei!
    Parabéns!!Ah! e que currículo virtuae fantástico!! Muito criativo!!
    abraços, de uma recente blogueira..
    Nidi

  5. Ei, Nidi! Bem bacana seu blogue! Passei por lá e voltarei!

    Beijo e obrigado pela visita!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: