21 de março: Dia Mundial da Poesia!

Em comemoração ao dia mundial da poesia postarei aqui dois textos, um em prosa, outro em verso.

A prosa é do estagirita Aristóteles. Talvez Platão, seu mestre, poderia ter escrito uma obra semelhante com melhores resultados, dada sua propensão idealista, mas… o que há de se fazer? O cara era mesmo chegado num diálogo…

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E, por outro lado, o nosso workaholic Aristóteles só não escreveu novelas pra Rede Globo…

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Os versos, para variar, são de João Cabral de Melo Neto, isto é, poesia mundial como exige o dia.

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Antes, e para efeito de contextualização temática, não resisti e, quebrando a promessa anunciada no primeiro parágrafo deste post, introduzirei aqui uma citação cabralina enquanto terceiro e não anunciado texto:

“Você vê os gregos: o Pégaso, o cavalo que voa, é o símbolo da poesia. Nós deveríamos botar antes, como símbolo da poesia, a galinha ou o peru – que não voam. Ora, para o poeta, o difícil é não voar, e o esforço que ele deve fazer é esse. O poeta é como o pássaro que tem de andar um quilômetro pelo chão.”

(João Cabral de Melo Neto)

Agora, como prometido, primeiro a prosa aristotélica:

ARTE POÉTICA

CAPÍTULO IV
(Origem da poesia. Seus diferentes gêneros)

Parece haver duas causas, e ambas devidas à nossa natureza, que deram origem à poesia.

2. A tendência para a imitação é instintiva no homem, desde a infância. Neste ponto distinguem-se os humanos de todos os outros seres vivos: por sua aptidão muito desenvolvida para a imitação. Pela imitação adquirimos nossos primeiros conhecimentos, e nela todos experimentamos prazer.

3. A prova é-nos visivelmente fornecida pelos fatos: objetos reais que não conseguimos olhar sem custo, contemplamo-los com satisfação em suas representações mais exatas. Tal é, por exemplo, o caso dos mais repugnantes animais e dos cadáveres.

4. A causa é que a aquisição de um conhecimento arrebata não só o filósofo, mas todos os seres humanos, mesmo que não saboreiem tal satisfação durante muito tempo.

5. Os seres humanos sentem prazer em olhar para as imagens que reproduzem objetos. A contemplação delas os instrui, e os induz a discorrer sobre cada uma, ou a discernir nas imagens as pessoas deste ou daquele sujeito conhecido.

6. Se acontece alguém não ter visto ainda o original, não é a imitação que produz o prazer, mas a perfeita execução, ou o colorido, ou alguma outra causa do mesmo gênero.

7. Como nos é natural a tendência à imitação, bem como o gosto da harmonia e do ritmo (pois é evidente que os metros são parte do ritmo), nas primeiras idades os homens mais aptos por natureza para estes exercícios foram aos poucos criando a poesia, por meio de ensaios improvisados.

8. O gênero poético se dividiu em diferentes espécies, consoante o caráter moral de cada sujeito imitador. Os espíritos mais propensos à gravidade reproduziram as belas ações e seus realizadores; os espíritos de menor valor voltaram-se para as pessoas ordinárias a fim de as censurar, do mesmo modo que os primeiros compunham hinos de elogio em louvor de seus heróis.

CAPÍTULO XXVI


(Algumas respostas às críticas feitas à poesia)

Sobre os pontos de controvérsia e as soluções para eles, sobre o número e as diferentes espécies de controvérsia, alguma luz derramarão as considerações em seguida:

2. Sendo o poeta um imitador, como o é o pintor ou qualquer outro criador de figuras, perante as coisas será induzido a assumir uma dessas três maneiras de as imitar: como elas eram ou são, como os outros dizem que são ou dizem que parecem ser, ou como deveriam ser.

3. O poeta exprime essas maneiras diversas por meio da elocução, que comporta a glosa, a metáfora e muitas outras modificações dos termos, como as admitimos nos poetas.

4. Acrescentemos que não se aplica o mesmo critério rigoroso da política à poesia, nem às outras artes em relação à poesia.

5. Em arte poética, são duas as ocasiões de cometer faltas: umas referentes à própria estrutura da poesia; outras, acidentais.

6. Se o poeta se propõe imitar o impossível, a falta é dele. Mas se o erro provém de uma escolha mal feita, se ele representou um cavalo movendo ao mesmo tempo as duas patas do lado direito, ou se a falta se refere a algum conhecimento particular como a medicina ou qualquer outra ciência, ou se de qualquer modo ele admitiu a existência de coisas impossíveis, então o erro não é intrínseco à própria poesia.

7. É com este critério que convém responder às críticas relativas aos poetas controversos. Examinemos primeiro o que diz respeito à própria arte: se o poema contém impossibilidades, há falta;

8. no entanto, isto nada quer dizer, se o fim próprio da arte foi alcançado (fim que já foi indicado) e se, desse modo, esta ou aquela parte da obra redundou mais impressionante, como, por exemplo, a perseguição de Heitor.

9. Contudo se o fim podia ser melhor alcançado, respeitando a verdade, a falta é indesculpável, pois tanto quanto possível dever-se-ia evitar qualquer falta.

10.Mas sobre qual destes dois pontos recai a falta: a própria arte ou uma causa estranha acidental? A falta é menos grave, se o poeta ignorava que a corça não tem cornos, do que quando ela não foi representada de acordo com sua figura.

11. Se, além disso, a ausência de verdade é criticada, é possível responder que o autor representou as coisas como elas devem ser, a exemplo de Sófocles, que dizia ter pintado os homens tais quais são.

12. Além destas duas espécies de explicação podemos ainda responder pela opinião comum, tal como ela se exprime acerca dos deuses.

13. Pois é possível que esta opinião sobre os deuses não seja boa nem exata, e que seja verdadeira a opinião de Xenófanes(1): “mas a multidão pensa de modo diferente”.

14. Talvez também as coisas não sejam representadas da melhor maneira (para a atualidade), mas como eram outrora; por exemplo, quando (o poeta diz) a respeito das armas: “que suas lanças estavam plantadas eretas como o ferro para o alto”; era esse o uso outrora, como é ainda hoje entre os ilírios.

15. Para saber se uma personagem falou e agiu bem ou mal, não devemos nos limitar ao exame da ação executada ou da palavra proferida, para saber se elas são boas ou más; é preciso ter em conta a pessoa que fala ou age, saber a quem se dirige, quando, por que e para que, se para produzir maior bem ou para evitar maior mal.

16. No exame do estilo importa refutar certas críticas, por exemplo, a referente ao uso da glosa (termo dialetal): em ourhaz men prvton “primeiro os machos”, não devemos interpretar “os machos”, mas “as sentinelas”. De igual modo, a propósito de Dólon – ele era de aspecto disforme – deve entender-se que ele não tinha um corpo desproporcionado, mas apenas um rosto feio, pois os cretenses exprimem por – de belo aspecto – a beleza do rosto. E nesta expressão: zvroteron de ceraie, não se trata de servir o vinho “sem mistura”, como se fosse para os bêbados, mas sim de misturar mais depressa.

17. O poeta pôde falar por metáforas, como por exemplo em: “Todos os outros, deuses e guerreiros, dormiam a noite inteira”; e logo a seguir diz: “quando olhava para a planície de Tróia… o ruído das flautas e das siringes”. Seguramente, “todos” está em lugar de “muitos” por metáfora, pois o termo “todo” contém a idéia de “muito”. Também: “a única que não se deita”, deve-se entender por metáfora, pois o mais conhecido é o que está só.

18. Pode tratar-se da acentuação.(…)

19. Outras vezes pela diérese, como nos versos de Empédocles: “Depressa se tornou mortal, o que antes tomara o hábito de ser imortal, e as coisas antes puras tornaram-se mescladas”.

20. Outras vezes por anfibologia: “as estrelas percorreram boa parte de seu curso; já passaram mais de dois terços da noite; falta apenas o último”, pois o termo plevn(2) tem sentido duplo;

21. Outras vezes trata-se de certa maneira de falar. Por exemplo, ao vinho misturado com água dá-se o nome genérico de “vinho”; daí se pôde dizer que Ganimedes serve esta bebida a Zeus, embora os deuses não bebam vinho. Os operários que na realidade trabalham o ferro, denominam-se “trabalhadores de bronze”; daí dizer-se “cnêmide de estanho novamente fabricada”. Todas estas expressões podem resultar de metáfora.

22 Quando um termo parece provocar uma contradição, importa examinar quantas interpretações ele pode tomar no passo em questão, como, por exemplo, em “a lança de bronze aqui se deteve”,

23. seria conveniente verificar de quantas maneiras se pode admitir que a lança tenha se detido. Será esta a melhor maneira de compreender, inteiramente oposta ao método de que fala Glauco,

24. a saber: alguns, sem boas razões, formam idéias preconcebidas, depois põem-se a raciocinar e a decidir pela condenação do que se lhes afigura ter sido dito no poema, sempre que vier de encontro à opinião deles.

25. Foi o que sucedeu a propósito de Icário. Pensa-se que ele foi lacedemônio. Parece portanto absurdo que Telêmaco não o tenha encontrado quando foi à Lacedemônia; mas talvez as coisas se tenham passado de modo diferente, a acreditarmos nos cefalênios. Dizem estes que Ulisses foi à terra deles casar-se, e que se trata de Icádio e não de Icário. É provável que o problema seja proveniente de um equívoco.

26. Em suma, devemos atribuir a presença do impossível à própria poesia, ou ao melhor para a situação, ou à opinião corrente.

27. No que diz respeito à poesia, deve-se preferir o impossível crível ao possível incrível. E talvez seja impossível que os homens sejam tais como os pinta Zêuxis;

28. mas ele os pinta melhores porque o paradigma deve ser de valor superior ao que existe; quanto às coisas irracionais referidas pela opinião, temos de admiti-las tais como são propaladas e

29. mostrar que por vezes não são ilógicas, pois é verossímil que aconteçam coisas na aparência inverossímeis.

30. Quanto às contradições, conforme foi dito, é necessário examiná-las, como se faz com as provas colocadas nos processos, ver se a afirmação refere-se ao mesmo caso e às mesmas coisas e da mesma maneira, se o poeta falou, ele próprio, e por que motivo, e o que pensaria sobre o assunto um homem sensato.

31. Entretanto a crítica tem fundamento, quando se trata do absurdo e da perversidade pura, não havendo então necessidade de se recorrer ao irracional, como fez Eurípedes a propósito de Egeu, ou à maldade de Menelau na peça Orestes.

31. As críticas referem-se a cinco pontos: o impossível, o irracional, o prejudicial, o contraditório, o contrário às regras da arte. As refutações devem ser buscadas nos casos enumerados, e são doze.

NOTAS:

1. Xenófanes, filósofo eleata de Colofônia. Viveu na segunda metade do século VI A.C. e sua obra trata de teologia, criticando bastante as crendices e o politeísmo populares. Para Xenófanes, Deus é uno, eterno, imortal e espiritual.

2. Significa “a metade” ou “dois terços”.

ARTE POÉTICA, tradução de Paulo Costa Galvão, Ed. eBooks Brasil.

Finalmente, os versos cabralinos (acho que este é o post mais longo que já escrevi):

O Autógrafo

Calma ao copiar estes versos

antigos: a mão já não treme

nem se inquieta; não é mais a asa

no vôo interrogante do poema.

A mão já não devora

tanto papel; nem se refreia

na letra miúda e desenhada

com que canalizar sua explosão.

O tempo do poema não há mais;

há seu espaço, esta pedra

indestrutível, imóvel, mesma:

e ao alcance da memória

até o desespero, o tédio.

João Cabral de Melo Neto in “Museu de Tudo”(1966-1974).

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~ por C. Guilherme A. Salla em 21/03/2009.

3 Respostas to “21 de março: Dia Mundial da Poesia!”

  1. Obrigada, Guilherme :)

    em celebração, outro grego e outra poesia * santé :)!

    Se partires um dia rumo à Ítaca
    Faz votos de que o caminho seja longo,
    repleto de aventuras, repleto de saber.
    Nem Lestrigões, nem os Ciclopes
    nem o colérico Posidon te intimidem;
    Eles no teu caminho jamais encontrarás
    Se altivo for teu pensamento,se sutil
    emoção teu corpo e teu espírito tocar.
    Nem Lestrigões, nem os Ciclopes
    Nem o bravio Posidon hás de ver,
    Se tu mesmo não os levares dentro da alma
    Se tua alma não os puser dentro de ti.

    Faz votos de que o caminho seja longo.
    Numerosas serão as manhãs de verão
    nas quais com que prazer, com que alegria,
    tu hás de entrar pela primeira vez um porto
    Para correr as lojas dos fenícios
    e belas mercancias adquirir:
    madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,
    e perfumes sensuais de toda espécie,
    quanto houver de aromas deleitosos.
    A muitas cidades do Egito peregrina
    Para aprender, para aprender dos doutos.

    Tem todo o tempo Ítaca na mente.
    Estás predestinado a ali chegar.
    Mas, não apresses a viagem nunca.
    Melhor muitos anos levares de jornada
    E fundeares na ilha velho enfim,
    rico de quanto ganhaste no caminho,
    sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
    Uma bela viagem deu-te Ítaca.
    Sem ela não te ponhas a caminho.
    Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.

    Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.
    Tu te tornaste sábio, um homem de experiência,
    e agora sabes o que significam Ítacas.

    Ítaca. Poema de Konstantinos Kaváfis, traduzido por José Paulo Paz.In:Poemas, SP:Nova Fronteira, s/d.

  2. Nesse “Museu de Tudo” há dois poemas que me quebram em oito: “A Bola” e outro sobre o número quatro, ‘(…)posto em patas’. A propósito deste meu Cabral que ei idolatro, um desafio, oh Salla: Seria o vocábulo ‘paraleleípedo’ metabolízável pela ‘poesis’ saliana? Truque que usei na prosa – empregar um pronome relativo (‘que’) posposto. Tão logo me retorne (eu entro bem, mas sem certeza se coloquei no lugar certo, lembre-se disso, queridão)e envio-lhe o especioso “Arquivo Truncado”, prosa metida, mezo sci-fi, mezo sei lá.

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