POESIAS TABAGISTAS – EDIÇÃO ESPECIAL: Bernardo Guimarães (1825-1884), “Ao cigarro” e “O charuto”.

Serrando cigarros, Serra ferra fumantes!

porco_serrote

O Carlton subiu novamente, agora são quase dois dólares o maço!

O governo federal sobretaxa em 30% a fumaça do cigarro e isenta de impostos a fumaça dos automóveis!

O governo do estado criminaliza o fumante, mas continua arrecadando às suas custas.

A indústria do tabaco continua firme e forte, já Constituição Brasileira teve o seu 5º artigo (sobre a liberdade de gerir o próprio corpo) queimado.

O Estado de São Paulo consagra-se, sob a batuta do governador tucano, como o mais reacionário e cerceador das liberdades individuais da federação.

Não é que o nosso governador não goste de fumaça (fosse este o caso e ele se candidataria ao governo do Estado do Pará), é que ele não gosta mesmo é de gente… ele governaria bem melhor sem elas.

serra

Há quem comemore a medida sem dar conta de quão perversa e perigosa é qualquer ação desta natureza contra a liberdade e os direitos do indivíduo, uma vez que, educação e bom senso não se constroem com leis, multas ou punições.

Argumenta-se sobre os ganhos para saúde pública, mas afinal, como fica nestas história a saúde mental? Dias de fúria se avizinham, amigos!

Como já havia dito aqui antes, em algum lugar, eu compro nicotina em estabelecimentos comerciais regulares e não numa boca de fumo!

Aliás, no estado de São Paulo passará a ser cada vez mais comum as “rodas de fumo” pelas calçadas dos passeios públicos:

– É na carioca, mano!

– Passa a bola Ronaldinho!

– Só mais um peguinha, eu preciso voltar pro bar que meu chopp tá esquentando!

rodinha de freiras

Em repúdio a atual situação das coisas, uma edição extraordinária das POESIAS TABAGISTAS com Bernardo Guimarães:

Bernardo Guimarães

AO CIGARRO

(canção)

Bernardo Guimarães

Cigarro, minhas delícias,
Quem de ti não gostarás?
Depois do café, ou chá,
Há nada mais saboroso
Que um cigarro de Campinas
De fino fumo cheiroso?

Cigarro, quanto és ditoso!
Já reinas em todo mundo,
E esse teu vapor jucundo
Por toda parte esvoaça.
Até as moças bonitas
Já te fumam por chalaça !…

Sim; – já por dedos de neve
Posto entre lábios de rosa,
Em gentil boca mimosa
Tu te ostentas com vaidade.
Que sorte digna de inveja!
Que pura felicidade!

Anália, se de teus lábios
Desprendes subtil fumaça,
Ah! tu redobras de graça,
Nem sabes que encantos tens.
À invenção do cigarro
Tu deves dar parabéns.

Qual caçoula de rubim
Exalando âmbar celeste,
Tua boca se reveste
Do mais primoroso chiste.
A tão sedutoras graças
Nenhum coração resiste.

Embora tenha o charuto
Dos fidalgos a afeição,
E do conde ou do barão
Seja embora o favorito;
Mas o querido do povo
Es tu só, meu cigarrito.

Quem pode ver sem desgosto,
Esse charuto tão grosso,
Esse feio e negro troço
Nos lábios da formosura?…
E uma profanação,
Que o bom gosto não atura.

Mas um cigarrinho chique,
Alvo, mimoso e faceiro,
A um rostinho fagueiro
Dá realce encantador.
E incenso que vapora
Sobre os altares de amor.

O cachimbo oriental
Também nos dá seus regalos;
Porém nos beiços faz calos,
E nos faz a boca torta.
De tais canudos o peso
Não sei como se suporta!…

Deixemos lá o grão-turco
No tapete acocorado
Com seu cachimbo danado
Encher as barbas de sarro.
Quanto a nós, ó meus amigos,
Fumemos nosso cigarro.

Cigarro, minhas delicias,
Quem de ti não gostará?
Certo no mundo não há
Quem negue tuas vantagens.
Todos às tuas virtudes
Rendem cultos e homenagens.

És do bronco sertanejo
Infalível companheiro;
E ao cansado caminheiro
Tu és no pouso o regalo;
Em sua rede deitado
Tu sabes adormentá-lo.

Tu não fazes distinção,
És do plebeu e do nobre,
És do rico e és do pobre,
És da roça e da cidade.
Em toda a extensão professas
O direito de igualdade.

Vem pois, ó meu bom amigo,
Cigarro, minhas delícias;
Nestas horas tão propícias
Vem dar-me tuas fumaças.
Dá-mas em troco deste hino,
Que fiz-te em ação de graças.

Rio de Janeiro, 1864

O CHARUTO

(ode)

Bernardo Guimarães

Vem, é meu bom charuto, amigo velho,
Que tanto me regalas;
Que em cheirosa fumaça me envolvendo
Entre ilusões me embalas.

Oh! que nem todos sabem quanto vale
Uma fumaça tua!
Nela vai passear do bardo a mente
Às regiões da lua.

E por lá embalado em rósea nuvem
Vagueia pelo espaço,
Onde amorosa fada entre sorrisos
O toma em seu regaço;

E com beijos de requintado afeto
A fronte lhe desruga,
Ou com as tranças d’ouro mansamente
As lágrimas lhe enxuga.

Ó bom charuto, que ilusões não geras!
Que tão suaves sonhos!
Como ao te ver atropelados correm
Cuidados enfadonhos!

Quantas penas não vão por esses ares
Com uma só fumaça!..
Quanto negro pesar, quantos ciúmes,
E quanta dor não passa!

Tu és, charuto, o pai dos bons conselhos,
O símbolo da paz;
Para cai santa pachorra adormecer-nos
Nada há mais eficaz.

Quando Anarda com seus caprichos loucos
Me causa dissabores,
Em duas baforadas mando embora
O anjo e seus rigores.
__________

Quanto lastimo os nossos bons maiores,
Os Gregos e os Romanos,
Por não te conhecerem, nem gozarem
Teus dotes soberanos!

Quantos males talvez não pouparias
À triste humanidade,
O bom charuto, se te possuísse
A velha antiguidade!

Um charuto na boca de Tarquinio
Talvez lhe dissipara
Esse ardor, que matou Lucrécia linda,
Dos mimos seus avara.

Se o peralta do Páris já soubesse
Puxar duas fumaças,
Talvez com elas entregara aos ventos
Helena e suas graças,

E a régia esposa em paz com seu marido
Dormindo ficaria;
E a Tróia antiga com seus altos muros
Inda hoje existiria.
__________

Quem dera ao velho Mário um bom cachimbo
Que lhe abrandasse as sanhas,
Para Roma salvar, das que sofrera,
Catástrofes tainanhas!

Mesmo Catão, herói trombudo e fero,
Talvez se não matasse,
Se a raiva que aos tiranos consagrava,
Fumando evaporasse

Fumemos pois! – Ambrósio, traze fogo…
Puff!…Oh! que fumaça!
Como me envolve todo entre perfumes,

Vai-te, alma minha, embarce-te nas ondas
Desse cheiroso fumo,
Vai-te a peregrinar por essas nuvens,
Sem bússola, nem rumo.

Vai despir no país dos devanejos
Esse ar pesado e triste;
Depois, virás mais lépida e contente,
Contar-me o que lá viste.

Ouro Preto, 1857

Bernardo Guimarães in “Poesias Diversas”.

!Trague seu poema!

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~ por C. Guilherme A. Salla em 10/04/2009.

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