Precocidade poética: NICOLLAS RANIERI

nicollas ranieri

Pense, nos dias de hoje, em um menino de 15 anos e imagine se as palavras e experiências abaixo transcritas não parecem deslocadas, como uma dublagem malfeita:

“Eu comecei a ler poesia através de algumas antologias escolares, e também com uma antologia organizada pelo Manuel Bandeira, a “Apresentação da Poesia Brasileira”, que eram os livros que eu tinha em casa. Li muito Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles e Vinicius de Moraes. Paralelamente comecei a escrever uma poesia infantil, sem conhecimento algum. Mostrei esses poemas a um poeta de minha cidade (Uberaba), Guido Bilharinho, que editou a revista Dimensão. Ele me disse que meus poemas eram ruins, me falou sobre poesia de uma maneira muito nova para mim até então, entregou-me João Cabral e os concretistas para ler, o que foi importantíssimo na minha formação. Durante dois anos reuni 30 poemas de caráter visual; assim nasceu meu primeiro livro, o “Fragmentos”, que foi publicado no fim do ano passado. Creio que esse é um livro de exercícios de estilo, não de poemas originais.”

Trecho de entrevista concedida em 2006 à revista Algaravária.

Agora, leia os poemas do tal garoto, com 14 anos então, e me diga:

Cena

NICOLLAS RANIERI

o ar queima
o mar arde
borboletas
cospem larvas
dragões vomitam
infernos
universos
sóis implodem

silêncio

uma mulher
se despe
se masturba
da vulva
ás
vísceras

quadros

NICOLLAS RANIERI

i

o velho relevo da tinta
quadros antigos
retratos em preto e branco
fotografias feridas

em estado de estátua
conversam e dialogam
as imagens de dentro
e as de fora

quadros enquadrados nas paredes
paredes enquadradas nos quadros
enquadrar o homem
o velho homem
o man

paredes não mais se sustentam
quadros não mais sustentam paredes
não sustentam
tentam

ii

quadros
retratos
em pedaços
cacos

genealogia
analogia
fria orgia

ser humano
secular
ocu
lar

retratados
tratados
atados
mal lembrados
desconhecidos
os

antigos retratos
quadros pesados

iii

molduras
duras
impuras
puras

ele murmura
ele nos retratos
tratos
ratos
atos

NICOLLAS RANIERI in “Fragmentos” (Uberaba: Instituto Triangulino de Cultura, 2005);

É foda ou não é?

Para dar uma espiada no que o poeta anda fazendo atualmente, do alto de seus 18 anos (?), visite o blog A flauta-vértebra .

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~ por C. Guilherme A. Salla em 18/04/2009.

4 Respostas to “Precocidade poética: NICOLLAS RANIERI”

  1. putz grila! silêncio…

  2. Interessante é perceber que o poeta se transformou quando teve contato com João Cabral e os concretos.
    Parece mesmo haver uma linha divisória entre os poetas …

  3. Estariamos nós sobre a linha, tal qual bêbados nos equilibrando sobre ela? Forma ou conteúdo?

  4. Realmente estamos sobre a linha. É difícil cair para um lado de uma vez só. Mas talvez isso não seja problema, basta encarar essa oscilação como estilo.

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