O estado da Poesia no Estado de São Paulo: apologia a Joca Reiners Terron!

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A educação pública no Estado de São Paulo se encontra deteriorada em um grau tão preocupante que até mesmo a cultura enfrenta barreiras e restrições para se colocar em um lugar que, em tese, deveria ser lhe o natural.

Quando a poesia e a literatura passam a ser barradas nas portas das escolas, submetidas a porta giratória detectora da moral policialesca, é porque o cadáver já se encontra realmente putrefato.

O que estamos assistindo ultimamente em matérias reverberada pela mídia jornalística analfabeta funcional é sintoma da perversão educacional paulista.

A inépcia de um governo que esta há vinte anos no poder neste estado, privatizando, vendendo e comprando e aviltando o seu patrimônio público e cultural, tal qual marreteiro de carros usados, só podia acabar no que agora estamos vendo: a criminalização da cultura enquanto instrumento de descaminho e corrupção da juventude!

E aí? Vamos queimar a obra de Platão em praça pública ou banir os poetas da república?

Primeiro foram os cartunistas, depois os poetas. E agora? Quem irão usurpar os sofistas vendilhões da próxima vez?

É, pois realmente a poesia, e a arte em suma, podem perverter a juventude e a perversão não pode de forma alguma estar inserida no sacrosanto ambiente escolar. A escola de ser um lugar estéril. Afinal é bem melhor que se haja a tal perversão, então que ela se dê nas ruas, nas mãos dos traficantes, aliciadores, nos banheiros dos bares e matagais.

Na escola não, na escola jamais!

A poesia é descaminho, subversão. Devemos poupar nossas crianças de nove anos dos textos e das palavras licenciosas… melhor, deveríamos mantê-las afastadas de qualquer texto e qualquer palavra, pois do contrário teríamos que admitir agora o que pretendíamos manter oculto: elas, a crianças de nove anos do ensino público paulista não sabem ler!

Vamos então aumentar a faixa etária indicativa das obras para os adolescente de treze a quatorze anos?

É inútil, eles também não sabem…

Aliás, é mesmo uma vergonha expor nossas crianças de nove anos ao sexo e às palavras chulas da poesia e artes contemporâneas dentro do ambiente escolar… é melhor que elas tenham estas experiências sozinhas, por si próprias nas ruas e em suas casas para que, aos doze ou treze engravidem e possam ir cuidar de suas próprias vidinhas…

Gostaria de deixar aqui minha manifestação de repudio ao governo do Estado de São Paulo, por um lado, e à mídia grande por outro. Mas, gostaria de expressar também meu apoio ao poeta Joca Reiners Terron, injustamente envolvido nessa medíocre e hipócrita bandalheira paulistana.

Viva a Poesia!

 

Manual de auto-ajuda para supervilões

Ao nascer, aproveite seu próprio umbigo e estrangule toda a equipe médica.
É melhor não deixar testemunhas.

Não vá se entusiasmar e matar sua mãe.
Até mesmo supervilões precisam ter mães.

Se recuse a mamar no peito. Isso amolece qualquer um.

Não tenha pai. Um supervilão nunca tem pai.

Afogue repetidas vezes seu patinho de borracha na banheira,
assim sua técnica evoluirá.
Não se preocupe. Patos abundam por aí.

Escolha bem seu nome. Maurício, por exemplo.

Ou Malcolm.

Evite desde o início os bem intencionados. Eles são super-chatos.

Deixe os idiotas uivarem. Eles sempre uivam, mesmo quando não
podem mais abrir a boca.

Odeie. Assim, por esporte.
E torça por time nenhum.

Aprenda a cantar samba, rap e jogar dama. Pode ser muito útil na cadeia.
Principalmente brincar de dama.

Ginga e lábia, com ardor. Estômago em lugar de coração,
pedra no rim em vez de alma.

Tome drogas. É sempre aconselhável ver o panorama do alto.

Fale cuspindo. Super-heróis odeiam isso.

Pactos existem para serem quebrados. Mesmo que sejam com o diabo.

Nunca ame ninguém. Estupre.

Execre o amável. Zele pelo abominável.

Seja um pouco efeminado.
Isto sempre funciona com estilistas.

[ in, “Poesia do Dia – Poetas de Hoje para Leitores de Agora”, org. Leandro Sarmatz, Ática, SP, 2008 ]


PS: Só para lembrar Joca Reiners Terron estará no SESC Campinas, a partir da semana que vem pra mais uma rodada da Roda de Leituras. Imperdível! Só não vale levar seus sobrinhos de nove anos…

Serviço:

Joca Reiners Terron

SESC Campinas

Dia(s) 03/06, 10/06, 17/06, 24/06
Quartas, das 19h30 às 21h30, Grátis.

 

Em sua terceira edição, a Roda de Leituras traz como mediador o escritor e designer Joca Reiners Terron, autor dos livros de poesia Eletroencefalodrama (1998) e Animal anônimo (2002) e de prosa Não há nada lá (2001), Hotel Hell (2003), Curva de Rio Sujo (2004), e Sonho interrompido por guilhotina (2006), entre outros. Workshop no dia 27. Sala de Atividades 1.

   
 

 

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~ por C. Guilherme A. Salla em 29/05/2009.

5 Respostas to “O estado da Poesia no Estado de São Paulo: apologia a Joca Reiners Terron!”

  1. “Um povo que cresce habituado à má literatura é um povo que está em vias de perder o pulso de seu país e o de si próprio.”
    (Ezra Pound)

  2. Cláudio, vc foi perfeito em sua análise. A abordagem da grande mídia a respeito deste caso tem sido a pior possível. Sugere que a inexistencia de educadores e de momentos de discussão e reflexão no processo educativo.

  3. bELO BLOG

    JOCA FARIA

    sÃO JOSÉ DOS CAMPOS

  4. Obrigado pela visita Joca! Pena não termos conversado lá no Festival… fica pro próximo…

  5. Vi algumas reportagens na tv sobre o poema do Joca e agora leio a sua abordagem sobre o assunto, sobre o autor dos versors e tudo mais. Você me fez refletir sobre uma dura realidade: estudantes que terminam o primeiro e segundo grau sem ter lido um único livro ou sem ter lido uma única poesia porque não sabem ler. O que o sistema está fazendo pra melhorar? O que nós estamos fazendo?
    Obrigada pela pertinente reflexão.
    Abraços poéticos….

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