O carteiro trouxe um cartão de aniversário para Pablo Neruda (1904 -1973).

neruda

WALKING AROUND

Sucede que me canso de ser hombre.
Sucede que entro en las sastrerías y en los cines
marchito, impenetrable, como un cisne de fieltro
Navegando en un agua de origen y ceniza.

El olor de las peluquerías me hace llorar a gritos.
Sólo quiero un descanso de piedras o de lana,
sólo quiero no ver establecimientos ni jardines,
ni mercaderías, ni anteojos, ni ascensores.

Sucede que me canso de mis pies y mis uñas
y mi pelo y mi sombra.
Sucede que me canso de ser hombre.

Sin embargo sería delicioso
asustar a un notario con un lirio cortado
o dar muerte a una monja con un golpe de oreja.
Sería bello
ir por las calles con un cuchillo verde
y dando gritos hasta morir de frío

No quiero seguir siendo raíz en las tinieblas,
vacilante, extendido, tiritando de sueño,
hacia abajo, en las tapias mojadas de la tierra,
absorbiendo y pensando, comiendo cada día.

No quiero para mí tantas desgracias.
No quiero continuar de raíz y de tumba,
de subterráneo solo, de bodega con muertos
ateridos, muriéndome de pena.

Por eso el día lunes arde como el petróleo
cuando me ve llegar con mi cara de cárcel,
y aúlla en su transcurso como una rueda herida,
y da pasos de sangre caliente hacia la noche.

Y me empuja a ciertos rincones, a ciertas casas húmedas,
a hospitales donde los huesos salen por la ventana,
a ciertas zapaterías con olor a vinagre,
a calles espantosas como grietas.

Hay pájaros de color de azufre y horribles intestinos
colgando de las puertas de las casas que odio,
hay dentaduras olvidadas en una cafetera,
hay espejos
que debieran haber llorado de vergüenza y espanto,
hay paraguas en todas partes, y venenos, y ombligos.
Yo paseo con calma, con ojos, con zapatos,
con furia, con olvido,
paso, cruzo oficinas y tiendas de ortopedia,
y patios donde hay ropas colgadas de un alambre:
calzoncillos, toallas y camisas que lloran340907
lentas lágrimas sucias.

Pablo Neruda, Residencia en la Tierra (1925-1935), Biblioteca Clásica y Contemporánea.


WALKING AROUND

Tradução de Wellington de Melo

Acontece que me canso de ser homem.

Acontece que entro nas alfaiatarias e nos cinemas

murcho, impenetrável, como um cisne de feltro

navegando numa água de origem e cinza.

O cheiro das barbearias me faz chorar a gritos.

Eu só quero um descanso de pedras ou de lã,

eu só quero não ver estabelecimentos nem jardins,

nem mercadorias, nem óculos, nem elevadores.

Acontece que me canso dos meus pés e minhas unhas

e meu cabelo e minha sombra.

Acontece que me canso de ser homem.

Entretanto seria delicioso

assustar um tabelião com um lírio cortado

ou dar morte a uma freira com um golpe de orelha.

Seria belo

ir pelas ruas com uma faca verde

e dando gritos até morrer de frio

Não quero seguir sendo raiz nas trevas,

vacilante, estendido, tremendo de sono,

para baixo, nas cercas molhadas da terra,

absorvendo e pensando, comendo a cada dia.

Não quero para mim tantas desgraças.

Não quero continuar de raiz e de tumba,

de subterrâneo só, de adega com mortos

congelados, morrendo de desgosto.

Por isso a segunda-feira arde como o petróleo

quando me vê chegar com minha cara de cárcere,

e uiva em seu transcurso como uma roda ferida,

e dá passos de sangue quente até a noite.

E me empurra a certos rincões, a certas casas úmidas,

a hospitais onde os ossos saem pela janela,

a certas sapatarias com odor a vinagre,

a ruas espantosas como fendas.

Há pássaros de cor de enxofre e horríveis intestinos

pendurados nas portas das casas que odeio,

há dentaduras esquecidas em uma cafeteira

há espelhos

que deveriam ter chorado de vergonha e espanto,

há guarda-chuvas em todas as partes, e venenos, e umbigos.

Eu passeio com calma, com olhos, com sapatos,

com fúria, com olvido,

passo, cruzo escritórios e lojas de ortopedia,

e pátios onde há roupas penduradas em um arame:

cuecas, toalhas e camisas que choram

lentas lágrimas sujas.

UM COGITO

Cuál es el trabajo forzado

de Hitler en el infierno?

Pinta paredes o cadáveres?

gás de sus muertos?

Le dan a comer las cenizas

de tantos niños calcinados?

O le han dado desde su muerte

de beber sangre en un embudo?

O le martillan en la boca

los arrancados dientes de oro?

O le acuestan para dormir

sobre sus alambres de púas?

O le están tatuando la piel

para lámparas del infierno?

O lo muerden sin compasión

los negros mastines del fuego?246398

O debe de noche y de día

viajar sin tregua con sus presos?

O debe morir sin morir

eternamente bajo el gas?

Pablo Neruda, Livro Das Perguntas (1974), L&Pm, 2004, pp.LXX – LXXI.

UM COGITO

Qual é o trabalho forçado
de Adolf Hitler no inferno?

Pinta paredes? Cadáveres?
Fareja o gás de suas vítimas?

Terá que ingerir as cinzas
dos meninos calcinados?

Ou desde sua morte há de
beber sangue num funil?

Ou lhe martelam na boca
os dentes de ouro arrancados?

Ou sobre arames farpados
lhe concederão dormir?

Vão ver sua pele tatuada
nos abajures de adorno?

Ou negros mastins de fogo
dele se incumbem no inferno?

Deve de noite e de dia
em trégua andar com seus presos?

Ou morrerá pouco a pouco
sob o mesmo gás eterno?

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~ por C. Guilherme A. Salla em 12/07/2009.

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