POESIAS TABAGISTAS: J. D. Salinger – O apanhador no campo de centeio

Fins de fevereiro e a fumaça baixa, agora é preciso fôlego para atravessar o ano…      

Meus alvéolos me revelam, meu pigarro me delata e ainda faltam dez cigarros no maço do ano.      

Ando lendo mais e escrevendo menos, fumando o mesmo.      

Do reclame de TV que diz que “ler também é um exercício” tiro meu consolo. Antes, eu não passava de um fumante sedentário.      

J. D. SALINGER, morto aos 91 anos de “causas naturais”, naturalmente não era um fumante. O mesmo não se pode dizer a respeito de HOLDEN CAULFIELD, o tabagista apanhador no campo de centeio.      

Passei meu carnaval fumando com CAULFIELD.  Quatro dias de folia e nicotina.      

Precisei explicar ao CAULFIELD que, aqui, no estado de São Paulo, não se pode fumar em lugares públicos, mas foi difícil fazê-lo entender.      

Ele disse:      

– Isso me deprime muito, toda essa merda e tudo! Vamos para o Rio de Janeiro!      

Mas eu contei a ele que no Rio também não seria possível…      

– Mas não estamos na porcaria do carnaval? – perguntou ele com indignação.      

É, CAULFIELD, pois é…

Então ele me disse, enquanto acendia mais um cigarro, que em Nova York, cidade onde vivia, e até no careta e conservador INTERNATO PENCEY, lugar em que só havia imbecis e de onde havia sido expulso, o habito de fumar era absolutamente natural e o fumante era respeitado. Infernal, não?      

É, CAULFIELD, pois é…

Depois de algumas tragadas em silencio, conclui dizendo a ele que, aqui, no estado de São Paulo, nas escolas públicas, professores e alunos também levam fumo, de um modo diverso, é claro. 

 

Não é mesmo infernal?

  

Senhoras e Senhores, na primeira edição do POESIAS TABAGISTAS de 2010, “O APANHADOR NO CAMPO DE CENTEIO” de J. D. SALINGER:      

by westwolf270

      

“Pulei depressa da cama e apaguei a luz da escrivaninha. Aí apaguei o cigarro na sola do sapato e botei a guimba no bolso. Aí comecei a abanar o quarto como um doido, para espalhar a fumaça – puxa, eu não devia era estar fumando lá. Aí apanhei meus sapatos, me meti no armário e fechei a porta. Puxa, meu coração estava batendo como um filho da mãe.      

Ouvi minha mãe entrar no quarto.      

– Phoebe? Vamos parar com essa fita. Eu vi a luz acesa, mocinha.      

– Olá – ouvi a Phoebe responder. – Não estava conseguindo dormir. Vocês se divertiram muito?      

– Muito – minha mãe disse, mas via-se logo que não era verdade. Ela não costumava se divertir muito quando saía.      

– Por que é que você ainda está acordada? Estava bem agasalhada?      

– Estava bem agasalhada, mas só que não conseguia dormir.      

– Phoebe, você andou fumando aqui? Diga a verdade, mocinha, por favor, a verdade.      

– O quê? – Phoebe perguntou.      

– Você ouviu o que eu disse.      

– Só acendi um, um pouquinho só. Só dei uma baforada. Aí joguei pela janela.      

– E por quê? Posso saber a razão?      

– Não estava conseguindo pegar no sono. “      

***      

“Dançamos umas quatro músicas e aí desliguei o rádio. Ela pulou de novo na cama e se meteu debaixo das cobertas.      

– Estou melhorando, não estou? – perguntou.      

– Puxa, e como!      

Me sentei outra vez na cama, pertinho dela. Estava meio sem fôlego. Andava fumando tanto que tinha perdido toda a resistência. Ela nem estava sem fôlego.”      

***      

“Estava me sentindo cada vez mais superior, no duro mesmo. Ela entrou, foi logo tirando o casaco e jogando na cama. Por baixo estava com um vestido verde. Aí ela sentou de lado na cadeira em frente da escrivaninha e começou a balançar o pé para cima e para baixo. Cruzou as pernas e começou a balançar o mesmo pé para cima e para baixo. Para uma prostituta, ela era um bocado nervosa. Era mesmo. Talvez porque fosse tão moça, devia ter mais ou menos a minha idade. Sentei numa poltrona ao lado dela e lhe ofereci um cigarro.      

– Eu não fumo – respondeu. Tinha uma voz fininha e fraca, a gente quase não escutava o que ela dizia. Mas nem agradecia quando alguém lhe oferecia alguma coisa. Acho que por simples ignorância.      

(…)      

– Qual é o teu nome? – perguntei. Ela estava só com uma combinação vermelha. Era um bocado embaraçoso, era mesmo.      

– Sunny – respondeu. – Vamos logo, tá?      

– Não está com vontade de conversar um pouco? – perguntei. Era o tipo da coisa infantil de dizer, mas estava me sentindo um bocado esquisito. – Você está com muita pressa?      

Olhou para mim como se eu fosse um maluco.      

– Afinal, você quer conversar sobre o quê?      

– Sei lá. Nada de especial. Só pensei que você talvez quisesse bater um papo.      

Ela sentou de novo na cadeira ao lado da escrivaninha. Mas via-se logo que ela não estava gostando. Começou a balançar o pé outra vez – puxa, que garota nervosa.      

– Você gostaria de fumar um cigarro agora? – perguntei. Esqueci que ela não fumava.      

– Eu não fumo. Escuta, se você quer falar, fala logo. Eu tenho mais o que fazer.      

Mas eu não conseguia pensar em nada para dizer. Pensei em perguntar como é que ela havia se tornado uma prostituta e tudo, mas fiquei com medo de fazer uma pergunta dessas. De qualquer maneira, provavelmente ela não teria me respondido.      

(…)      

Mas eu sou doido. Verdade. Juro por Deus. Na metade do caminho para o banheiro, comecei a fingir que estava com uma bala no bucho. O tal de Maurice tinha me chumbado. Por isso eu estava indo para o banheiro tomar uma bruta talagada de uísque ou coisa parecida, para acalmar os nervos e me ajudar a entrar mesmo em ação. Me imaginei saindo da porcaria do banheiro de terno e tudo, com minha pistola no bolso e cambaleando um pouco. Aí, em vez de usar o elevador, eu descia pela escada, me agarrando no corrimão e tudo, enquanto um filete de sangue escorria pelo canto da minha boca. Ia descer alguns andares – apertando a barriga, sangue pingando por todo lado – e aí chamava o elevador. Assim que o tal do Maurice abrisse a porta, dava de cara comigo, de pistola na mão, e ia começar a gritar, com aquela voz esganiçada de quem está apavorado, me pedindo para deixar ele em paz. Mas eu chumbava ele assim mesmo. Seis tiros bem no meio daquela barrigona cabeluda. Aí eu jogava a pistola no poço do elevador – depois de apagar as impressões digitais e tudo. Aí me arrastava escada acima até o quarto e chamava a Jane para vir fazer um curativo na minha barriga. Fiquei imaginando a Jane botando um cigarro aceso na minha boca e segurando para eu tragar, enquanto o sangue continuava a correr e tudo.      

A culpa é da droga dos filmes de bandido. Por mais que a gente evite, acaba influenciado. Fora de brincadeira.      

(…)      

Depois que a tal de Sunny foi embora, me sentei numa cadeira e fumei uns dois cigarros. O dia estava começando a clarear. Puxa, eu estava nas últimas.”      

***      

Salinger, J. D. – “O apanhador no campo de centeio” Baixe o e-book  AQUI !

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~ por C. Guilherme A. Salla em 27/02/2010.

10 Respostas to “POESIAS TABAGISTAS: J. D. Salinger – O apanhador no campo de centeio”

  1. Dúvido que o bom Holden suportasse tempos como estes de neopuritanismo e proibições descabidas. Dá até vontade de vomitar e tudo.

  2. É Guilherme, pois é, assim os colégios técnicos, as ginásticas laborais e os corpos dóceis foram aos poucos matando a literatura em nossos colégios e cada vez mais colhendo mão de obra produtiva e controlada. Não é mesmo infernal?

    Belo post mano.

  3. Lalo, valeu! No duro. Tempos infernais…

  4. Como disseram antes Holden e Lalo, dá vontade de vomitar e tudo…

    Abraço, amigo!

  5. Ah, este Welfare State vai nos matar mais rapidamente que a nicotina: de tédio! Uma pena o escritor ter morrido, mas não fiquei sabendo de nada novo da parte dele, puta merda, deus deve tê-lo castigado por ter criado uma obra-prima tão cedo e depois nunca mais.

  6. you can take my pic witch you used with out permission down please… if you gonna use someone’s art you should ask for permission, and or at the very least link back and give credit. thank you

  7. Sorry, man! But i’m take this pic in anothet place in the infinite web… please, excuse me!
    Now, the artist link:
    http://westwolf270.deviantart.com/art/holden-caulfield-finished-106886242

    Thank you!

  8. A grande maioria não é mesmo livre.Holden não era grande maioria.
    Holden fez eu construir um sonho:”entrar num pub em NY, tomar um whiskey ,escutando blues/jazz acompanhada do meu marlboro, ou se prefirir, um carlton.
    O apanhador no campo de centeio é um livro livre.

  9. Nossa liberdade virou fumaça, Bruna!

    Obrigado pela visita e comentário.

  10. Holden Calfield, marcou muito… Livro fantástico.

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