NANO ANTOLOGIA DA POESIA CONTEMPORÂNEA DE INDAIATUBA: Lalo Arias

 

Divulgar os poetas locais é o objetivo desta antologia que não se pretende definitiva e está aberta à contribuições mediante a apresentação de comprovante de residência e dos carnês de IPTU, ano base 2009, quitados, e de aprovação da comissão editorial deste blogue. (ok, mentira… esqueça a parte sobre o comprovante de residência  e o IPTU)

Em sua segunda edição, NANO ANTOLOGIA DA POESIA CONTEMPORÂNEA DE INDAIATUBA apresenta:

Lalo Arias

  • Idade: 56
  • Sexo: Masculino
  • Signo astrológico: Gêmeos
  • Profissão: Poeta e jornalista

 

LALO ARIAS por ele próprio:

Lira dos 55 anos

Já fui vários. Fui tolo. Fui também sábio, segundo dizem. Criança, subi aos céus ouvindo preces à tardinha. Pensei ser único, estava certo, estava errado. Já fui tantos. Já fui Tonto mas sonhava ser Zorro com capa negra e um corcel inventado no quintal de casa. Fui El Cid no mezanino da garagem, com escudo de madeira e espada de matéria plástica. Peguei febre, dormi dias seguidos. Quando acordei, já tinha cabelos compridos, uma mochila e apetite de adulto. Tomei um trem aos 18, fui parar em Cochabamba no meio de uma revolução. Amei todas as mulheres do mundo, ainda amo, às vezes. Traí, já fui traído. Amei minha vizinha, caí da motocicleta, ganhei milhões, perdi tudo. Já fui muitos, fui ninguém. Fui da tribo, pegamos a trilha e beiramos o Rio Assungui tomando cachaça, comendo guisado e cheirando lança-perfume. Me casei, me perdi. Sofri tanto que cortei os pulsos. Deu em nada, nem cicatriz. Fui poeta alucinado nas noites, nas ruas de São Paulo. Dancei no Madame Satã, ouvi Ira no Lira, bebi no Pirandello. Fui funcionário público, dono de bar e viajante vagabundo. Fui vários, fui tantos, fui muitos. Viajei nas asas do Correio Aéreo Nacional, já fui pássaro e me feri. Passei noites inteiras inventando um novo país no balcão do Longchamp. Levava uma vida boa no bar Longchamp. Vi tantos filmes que me esqueci. Amei Maureen O’Hara, depois Claudia Cardinalle. Amei Kim Novak e Romy Schneider, mas depois desisti. Li Lautreamont em pé no onibus cheio. Devorei Rimbaud. Celebrei Baudelaire, me embriaguei. Fui desaforado e tímido. Fui vários, fui muitos. Aos 40 dei uma parada, quase enlouqueci. Viajei, mudei, aprendi. Hoje sou pouco, quase nada. Acredito em Deus. Tenho amigos da vida inteira, alguns já perdi. Trabalho feito um mouro, mas às vezes fico parado na esquina olhando carros, contando estrelas, assoviando baixinho e avisando aos transeuntes: “posso estar certo, devo estar errado, sou o homem que sempre quis ser”.

(maio, 2008)

 

Os poemas que se seguem estão publicados originalmente em

http://laloarias.blogspot.com/

 e são parte de “Cartas para Naíma”, obra em construção no próprio blogue com edição impressa prevista para o fim deste ano.

É AGUARDAR!

 

10 DE FEVEREIRO

 

(Lalo Arias em “Cartas para Naíma”)

Naíma, não há melhor lugar para viver
do que aqui na velha poltrona.
Posso ficar à disposição das intempéries
enquanto a vida escoa.
Tudo cobre o meu corpo através da vidraça.
Já não sinto falta de mim mesmo,
me sinto bem acompanhado, em silêncio.

As últimas chuvas trouxeram o mar
para mais perto,
se me debruçasse um pouco
sobre o parapeito da varanda
poderia tocar as águas.

Não abro mais as portas nem o vidro das janelas,
o ar da cidade tornou-se espesso demais
e se ele avançar apartamento a dentro
terei a impressão
que é impossível abrir os olhos.
Assim eu perderia o desfile
dos veleiros, das baleeiras e dos cargueiros.
Os barcos, todos eles, dia e noite,
seguem um cortejo moroso
diante da janela. Eles já não aportam.

O único sacolejar do apartamento
deveria ser o da mudança das marés
afligindo as paredes do prédio pelo lado de fora.
Mas não, por vezes um leve tremor distoa
aqui dentro,
deve ser apenas um pequeno vento,
como uma porta de armário batendo.

Vejo daqui também o oscilar das horas,
o tempo rastejando através do céu.
Algumas nuvens assobram as manhãs,
elas chegam amontoadas
como um céu novíssimo, inventado novamente,
e escondem tudo num instante.
Cheguei a pensar que eram os pássaros
abandonando a cidade em bandos
que de tão coesos traziam em si a noite.
Mas, você sabe, os pássaros já não existem mais 

(fevereiro, 2010)

 ***

28 DE FEVEREIRO

 

(Lalo Arias em “Cartas para Naíma”)

O apartamento continua o mesmo
universo de sempre.
O mesmo lar
tão mudado,
tão distinto.
Nada deveria mudar o nosso mundo,
Naíma.

Hoje cedinho
comecei a encaixotar os livros.
Não suportaria mais conviver
com tantas estórias escapando
de cada um deles.
E a mistura de vozes
e as tipologias se entrelaçando.
Cada palavra
e cada frase tomando vida
e navegando no ar da sala,
ancorando nos cantos
de todas as dependências
como móbiles,
inúmeros, infinitos.

Primeiro separei os livros por gênero,
então por autores.
O chão da sala,
do quarto,
da cozinha
e da varanda
ficou tomado.
Depois de guardar todos os livros,
fechei as caixas
e etiquetei todas elas.

Aos poucos tudo voltou ao normal.
O silêncio
de prata
e o ar
completamente desimpedido.

Enquanto as palavras descansam,
Naíma,
é possível respirar.

(fevereiro, 2010)

 

Para conhecer melhor o poeta, suas concepções estéticas e influências, veja também:

ENTREVISTA COM LALO ARIAS

Eis um trecho:

“L.A.—  Alguém já falou que a poesia é como o suicídio: ‘de repente ele baixa e você o comete’. Não tem tempo, não há hora. Alguma coisa vai se desenrolando em um lugar dentro de você, que sinceramente não sei qual é, e, assim, sem mais nem menos, ela acontece. O estopim pode ser uma palavra, um acontecimento, um objeto, um relance, qualquer coisa, e então ela explode. Mas sinto necessidade de escrever o tempo inteiro, é como uma droga. Só não consigo me programar, isto é, sentar-me na frente do computador e dizer: ‘um, dois e já, podemos começar’. ”

Veja também:

NANO ANTOLOGIA DA POESIA CONTEMPORÂNEA DE INDAIATUBA: Antônio da Cunha Penna

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~ por C. Guilherme A. Salla em 05/03/2010.

Uma resposta to “NANO ANTOLOGIA DA POESIA CONTEMPORÂNEA DE INDAIATUBA: Lalo Arias”

  1. Caríssimo Guilherme,
    fiquei sensibilizado com a deferência. De verdade. São atitudes como essas que me fazem continuar. Sempre admirei sua disposição e generosidade em divulgar a poesia e seus bastidores.
    Fica aqui um grande abraço e meu agradecimento sincero.
    Em tempo: trechos da entrevista foram truncados no texto original, mas ainda assim dá uma certa idéia do que penso a respeito da poesia e da literatura em geral.

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