KEROUAC, GINSBERG, WHITMAN e eu

 

Sim, sim, como é iluminador ler poemas irmãos…

Não podia ter acontecido de outra forma, a estrada se estende diante das rodas, dos pés que já não tocam mais o chão.

Eu fui dar com KEROUAC aos 2000 metros de altitude e rolei com ele ON THE ROAD, ladeira abaixo, a última viagem, e também a primeira, dessa estrada sem fim.

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Jack Kerouac

Foi que tudo começou a se interpor no meu caminho e isso só podia indicar que era assim mesmo que as coisas deveriam ser… era a estrada começando, era a via principal.

E que TUDO passa por ela, necessariamente.

Agora mesmo passaram juntos ALLEN GINSBERG e WALT WHITMAN… os dois juntos, na mesma faixa, no mesmo sentido da estrada.

Eu não posso mais ficar parado.

Meu carro foi roubado, aquele que sempre me levou, foi levado.

Não vou mais ao supermercado, não ouço mais canções.

Eu não posso mais ficar parado.

 

 

UM SUPERMERCADO NA CALIFÓRNIA

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Allen Ginsberg

Como  estive pensando em você esta noite, Walt Whitman,

enquanto caminhava pelas ruas sob as arvores, com dor de ca-
beça, autoconsciente, olhando a lua cheia.

No meu cansaço faminto, fazendo o Shopping das ima-

gens, entrei no supermercado  das frutas de néon sonhando com
tuas enumerações !

Que pêssegos e que penumbras ! Famílias inteiras fazendo

suas compras a noite ! Corredores cheios de maridos !  Esposas
entre os abacates, bebês nos tomates ! – e você, Garcia Lorca,
o que fazia lá, no meio das melancias ?
Eu o vi WW, s/ filhos, velho vagabundo soli-

tário, remexendo nas carnes do refrigerador e lançando olhares
para os garotos da mercearia.

Ouvi-o fazer perguntas a cada um deles; Quem matou as

costeletas de porco ? Qual o preço das bananas ? Será você meu
Anjo ?

Caminhei entre as brilhantes pilhas de latarias, seguindo-o

e sendo seguido na minha imaginação pelo detetive da loja.
Perambulamos juntos pelos amplos corredores com nosso
passo solitário, provando alcachofras, pegando cada um dos pe-
tiscos gelados e nunca passando pelo caixa.

Aonde vamos, WW ? As portas fecharão em uma

hora. Para quais caminhos aponta tua barba esta noite ?

( Toco teu livro e sonho com nossa odisséia no super-

mercado e sinto-me absurdo.)

Caminharemos a noite toda por solitárias ruas ? As ár-

vores somam sombras às sombras, luzes apagam-se nas casas, fi-
caremos ambos sós.

Vaguearemos sonhando com a América perdida do amor,

passando pelos automóveis azuis nas vias expressas, voltando
para nosso silencioso chalé ?

Ah, pai querido, barba grisalha, velho e solitário pro-

fessor de coragem, qual América era a sua quando Caronte
parou de impelir sua balsa e Você na margem nevoenta,
olhando a barca desaparecer nas negras águas do Letes ?

Allen Ginsberg, in “Uivo”, L&PM, 1984.

ooooOOOoooo

  CANÇÃO DE MIM MESMO

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Walt Whitman


E o que eu assumo você vai assumir,
Pois cada átomo que pertence a mim pertence a
[ você.

Vadio e convido minha alma,
Me deito e vadio à vontade …. observando uma
[ lâmina de grama do verão.

Casas e quartos se enchem de perfumes …. as
[ estantes estão entulhadas de perfumes,
Respiro o aroma eu mesmo, e gosto e o
[ reconheço,
Sua destilação poderia me intoxicar também,
[ mas não deixo.

A atmosfera não é nenhum perfume …. não tem
[ gosto de destilação …. é inodoro,
É pra minha boca apenas e pra sempre …. estou
[ apaixonado por ela,
Vou até a margem junto à mata sem disfarces e
[ pelado,
Louco pra que ela faça contato comigo.

A fumaça de minha própria respiração,
Ecos, ondulações, zunzuns e sussurros …. raiz
[ de amaranto, fio de seda, forquilha e videira,
Minha respiração minha inspiração …. a batida
[ do meu coração …. passagem de sangue e
[ ar por meus pulmões,
O aroma das folhas verdes e das folhas secas,
[ da praia e das rochas marinhas de cores
[ escuras, e do feno na tulha,
O som das palavras bafejadas por minha voz ….
[ palavras disparadas nos redemoinhos do
[ vento,
Uns beijos de leve …. alguns agarros …. o
[ afago dos braços,
Jogo de luz e sombra nas árvores enquanto
[ oscilam seus galhos sutis,
Delícia de estar só ou no agito das ruas, ou pelos
[ campos e encostas de colina,
Sensação de bem-estar …. apito do meio-dia
[ …. a canção de mim mesmo se erguendo
[ da cama e cruzando com o sol.

Uma criança disse, O que é a relva? trazendo um
[ tufo em suas mãos;
O que dizer a ela ?…. sei tanto quanto ela o que
[ é a relva.

Vai ver é a bandeira do meu estado de espírito,
[ tecida de uma substância de esperança verde.
Vai ver é o lenço do Senhor,
Um presente perfumado e o lembrete derrubado
[ por querer,
Com o nome do dono bordado num canto, pra que possamos ver e examinar, e dizer
É seu ?

O blablablá das ruas …. rodas de carros e o
[ baque das botas e papos dos pedestres,
O ônibus pesado, o cobrador de polegar
[ interrogativo, o tinir das ferraduras dos
[ cavalos no chão de granito.
O carnaval de trenós, o retinir de piadas
[ berradas e guerras de bolas de neve ;
Os gritos de urra aos preferidos do povo ….
[ o tumulto da multidão furiosa,
O ruflar das cortinas da liteira — dentro um
[ doente a caminho do hospital,
O confronto de inimigos, súbito insulto,
[ socos e quedas,
A multidão excitada — o policial e sua estrela
[ apressado forçando passagem até o centro
[ da multidão;
As pedras impassíveis levando e devolvendo
[ tantos ecos,
As almas se movendo …. será que são invisíveis
[ enquanto o mínimo átomo é visível ?
Que gemidos de glutões ou famintos que
[ esmorecem e desmaiam de insolação
[ ou de surtos,
Que gritos de grávidas pegas de surpresa,
[ correndo pra casa pra parir,
Que fala sepulta e viva vibra sempre aqui….
[ quantos uivos reprimidos pelo decoro, Prisões de criminosos, truques, propostas
[ indecentes, consentimentos, rejeições de
[ lábios convexos,
Estou atento a tudo e as suas ressonâncias ….
[ estou sempre chegando.

 

Sou o poeta do corpo,
E sou o poeta da alma.

Os prazeres do céu estão comigo, os pesares do
[ inferno estão comigo,
Aqueles, enxerto e faço crescer em mim mesmo
[ …. estes, traduzo numa nova língua.

Sou o poeta da mulher tanto quanto do homem,
E digo que é tão bom ser mulher quanto ser
[ homem,
E digo que não há nada maior que a mãe dos
[ homens.

 

 

Vadio uma jornada perpétua,
Meus sinais são uma capa de chuva e sapatos
[ confortáveis e um cajado arrancado
[ do mato ;
Nenhum amigo fica confortável em minha
[ cadeira,
Não tenho cátedra, igreja, nem filosofia;
Não conduzo ninguém à mesa de jantar ou à
[ biblioteca ou à bolsa de valores,
Mas conduzo a uma colina cada homem e mulher
[ entre vocês,
Minha mão esquerda enlaça sua cintura,
Minha mão direita aponta paisagens de
[ continentes, e a estrada pública.

Nem eu nem ninguém vai percorrer essa estrada
[ pra você,
Você tem que percorrê-la sozinho.

Não é tão longe assim …. está ao seu alcance,
Talvez você tenha andado nela a vida toda e não
[ sabia,
Talvez a estrada esteja em toda parte sobre a
[ água e sobre a terra.

Pegue sua bagagem, eu pego a minha, vamos em
[ frente;
Toparemos com cidades maravilhosas e nações
[ livres no caminho.

Se você se cansar, entrega os fardos, descansa a
[ mão macia em meu quadril,
E quando for a hora você fará o mesmo por mim;
Pois depois de partir não vamos mais parar.

Walt Whitman In “Folhas de Relva”, Ed. Iluminuras, São Paulo, 2005.

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~ por C. Guilherme A. Salla em 04/06/2011.

5 Respostas to “KEROUAC, GINSBERG, WHITMAN e eu”

  1. Muito boa a escolha dos poemas, aliás, já leu Ode a Walt Whitman? É do García Lorca, segue numa linha bem parecida com o destes :)

  2. Parece loucura: o volume do Tristessa do Kerouac sobre o volume do Folhas… do Whitman na mesa de cabeceira ao lado da minha cama. E o Uivo ali perto, sempre ao alcance da mão.
    Viajamos juntos, companheiro, disso eu não tenho dúvidas.
    Grande abraço.

  3. A estrada é uma só, amigos.

    Valeu, Lalo! Obrigado, Rafa!

  4. Blog? Está mais para um registro espacial do tempo. Uma cápsula do tempo. Vamos enterrar esse blog agora. Achar daqui trinta anos. Vão dizer que você era louco. Um belo elogio.
    Que sinais são esses? Que penunbra? Que imagens? Que dias tem passado por aqui? Tudo parece tão atual!

  5. Erso, irmão, valeu!

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